Tradicionalmente, são os livros que costumam servir de base para
filmes, séries de TV e até videogames. Mas essa lógica está sendo
subvertida. Jogos campeões de venda e queridinhos dos gamers estão
inspirando o lançamento de romances baseados na trama dos games.
No Brasil, foi o lançamento do primeiro volume do livro Assassin’s Creed - Renascença,
inspirado no game homônimo, em 2011, que apontou para as editoras que
esse seria um mercado promissor: a obra ficou seis meses na lista de
mais vendidos e já vendeu mais de 80 mil cópias no país, segundo a
filial brasileira da Ubisoft, produtora responsável pelo lançamento do
game. Na Bienal deste ano, em São Paulo, a publicação foi a 10º mais
vendida.
Entre os outros romances de ficção baseados em games que também caíram nas graças do público estão Bioshock, Gears of War, Uncharted e ainda as continuações Assassin’s Creed: Irmandade e A Cruzada Secreta
– este, recém-lançado. Mas o que leva um jogador que passa horas em
frente ao videogame, explorando as aventuras de um jogo, a trocar o
console por um livro sobre a mesma história?
“Prolongar a experiência”, diz o gamer Rodrigo Alvarenga, 29. Fã do jogo de Assassin’s Creed,
ele diz que comprou o livro esperando algo adicional na trama. “Não foi
o que encontrei em termos da história mesmo, que é aquela que jogamos.
Mas ela vem carregada de um contexto histórico que talvez a gente, por
jogar demais, acabe não percebendo. E a história é muito boa”, diz.
O romance de Assassin's Creed é de fato um fenômeno. Baseada
em uma cultuada série de games para PC e Xbox, a obra acompanha a
trajetória de Ezio Auditore da Firenze durante o período da Renascença.
Ezio se tornou um assassino aos 17 anos, após a morte de seus irmãos
Federico e Petruccio, vitimas de uma traição armada pelos Templários. No
livro, o leitor tem mais detalhes históricos do que na tela e acompanha
encontros do protagonista com personalidades como Leonardo da Vinci e
Maquiavel.
“Penso no livro Bioshock – Rapture como um complemento do
game. Até porque, nesse caso, o romance conta uma história anterior à do
game, ou seja, te oferece formas de compreender melhor o que acontece e
traz mais questionamentos. Acho que os games hoje têm mais envolvimento
emocional pelas possibilidades de interação que nós, jogadores, temos”,
diz o estudante de história Giuliano Cunha, 24, um dos fãs do jogo de
tiro.
A força narrativa desses jogos, somada à produção e a recursos gráficos
que os assemelham a um filme, facilita a transformação deles em
romance, já que os elementos necessários para a história – o plot, ou
seja, a trama que envolve os personagens, motivações, desafios, entre
outros – estão todos lá.
“Uma boa história é uma boa história em qualquer formato”, diz Thales
Guaracy Ferreira, diretor editorial de Ficção e Não Ficção da editora
Saraiva, ao comentar o sucesso dessas publicações.
A editora é responsável pelo lançamento do livro Uncharted, do
escritor e roteirista de jogos Christopher Golden. A série de games é
sucesso mundial e já venceu diversas premiações, desde melhor jogo do
ano a melhores gráficos.
“O livro é inspirado na série, mas é como se fosse um jogo diferente,
como se o leitor estivesse jogando outro game”, diz Thales.
Para o editor, essa ascensão dos games no mundo dos romances reforça a
qualidade dos jogos de hoje em dia. “Cada vez mais, à medida que você
joga e passa de fases, as histórias se desenrolam de uma forma parecida
com um filme [no caso de Uncharted, a série vai mesmo ganhar
produção para o cinema], o que reforça a qualidade das histórias e
produções“, completa ele, que acrescenta outro elemento fundamental para
o sucesso desses romances: os autores escalados.
“O Christopher Golden, de Uncharted, é um escritor renomado,
autor de vários best-sellers de aventura, não é um escritor apenas de
games. Então, esses livros são, na verdade, livros de aventura, de ação.
Por isso que atraem também os leitores que não jogam videogame, mas se
interessam por esse tipo de história”, diz Thales.
Golden também já fez argumentos para histórias em quadrinhos e roteirizou jogos como Hellboy e X-Men.
Entre os autores dessa linha que foram convidados para adaptar outros
games para o formato romance estão a autora de ficção científica Karen
Traviss, chamada para escrever a mais recente história da série Gears of War – e que costuma brincar que escreve sobre games sem ser uma gamer –, e John Shirley, roteirista do filme O Corvo, responsável por transformar o jogo Bioshock em livro.
Já a trilogia de Assassin’s Creed ficou a cargo de Anton Gill,
um historiador da Renascença que escreve sob o pseudônimo de Oliver
Bowden. Está explicado porque o livro atrai tantos leitores pelo
contexto histórico.